NEGRITA, A CADELA TERRIVEL



MIGALHAS DE PÃO, A VIDA É UM SOPRO

Realmente, como já disse Oscar Niemeyer “A vida é um sopro”. Acabei por comprovar pela recente morte de “Negrita” (nossa cadelinha), que o famoso arquiteto de grandes obras e também de frases com reflexão filosófica como essa, soube tão bem definir a passagem da vida pra morte. Se a gente pensasse como ele talvez nossa atenção para com ela fosse bem maior. Tivemos zelo, tivemos todo cuidado do mundo dando os remédios na hora certa, mas faltou apreciá-la como nosso bicho de estimação, um sentimento mais intenso como se fosse a cada instante a nossa última presença, ou seja, esquecemos de lembrar que a qualquer momento – pela idade que já tinha (19 anos) e a doença no coração e no fígado – o vento podia soprar e levá-la como terminou levando, em questão de horas (morreu na clínica), ela longe do aconchego seu lar e da sua família. Não tivemos tempo de vê-la e nem senti-la pelo o amor “animal”. Sabe, daqueles de brincar, fazer estripulias por toda casa e lambidas do cachorro na nossa cara. Faltou exatamente isso e agora sobram bastantes saudades dela.
“Negrita” era uma cachorra dócil e inteligentíssima, pois sabia como ninguém ganhar suas migalhas de pão. Sim, aquele olhar de carente e de piedade amolecia quem estive por perto na hora do café da manhã ou no almoço. Lá estava ela prontamente na marcação, assim que um acabava ela já corria para o outro com a mesma feição de “cão sem dono”, e interessante é que a gente dava (de forma mecânica ou involuntária) nossa comida, mesmo ela não podendo comer, pois prejudicava sua saúde outro alimento sem ser a ração hepática, que ela comia sem muita vontade. Temos consciência da nossa parcela de culpa, mas a verdade é que proporcionamos a “Negritinha” uma felicidade única e uma alegria sem par, ao comer nossos pedacinhos de pão jogados escondido de Dona Lígia (a verdadeira dona da cadelinha) e seu exército – de um homem só – da salvação canina (Zilda). Só sei dizer como a propaganda do Master Card: “um cão feliz não tem preço...”
Desde a morte de “Morena” me apeguei a “Negrita” como se fosse à última das cachorras da face da terra e como isso, passei a dá uma atenção especial a ela e me tornei seu cúmplice das suas aventuras de comilança, como guloso que sou. Assim que sentia pelo faro que já eu tinha chegado, ao regressar da faculdade já tarde da noite, ela não saia da cozinha e nem de perto de mim, enquanto não rolasse uma sobra do sanduíche ou de qualquer outra coisa que estive comendo. Tornou-se minha companheira de janta. Comia colada, mas satisfeita por ganhar a última refeição do dia, depois subia para o quarto (com ar-condicionado ligado, ela não suportava calor) e tirava seu sono no friozinho.
Assim era a rotina de “Negrita” a última das cadelas daqui de casa. Querida por todos e igualmente amada, até por mim nesses tempos de ausência de “Morena”. Tornei-me fã da *cadela terrível.
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Negrita e Samir secando do banho
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A verdade é que agora ela deve está junto a “Samir” sua irmã, que durante muito tempo sentiu sua falta. Andavam as duas sempre juntas, desde quando elas foram encontradas no terreno baldio vizinho a nossa casa. Estavam subnutridas, sujas e cheias da carapatos. Foram parar no veterinário e daí por diante passaram a fazer parte da família.
Precisava ver a relação família delas, pautada num respeito “animal”. “Samir”, a mais velha, decidia sempre o que iria fazer durante o dia: brincar no jardim e depois correr latindo até o portão a cada toque da campainha de alguém. Lembrança de um tempo bom...
Hoje nossa casa perdeu a alegria, já não tem nenhum cachorro e nem terá para alegrar nosso viver. O vento soprou, as migalhas continuam a esperar por “Negrita” e a gente tem perfeita a sensação que ela ainda continua por ai.
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Negrita
vida: 1991 - Morte: 1º/05/2010
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* Por não ficar quieta, principalmente quando se tratava de comida. Ela não parava, aqui, ali atrás da gente... Haja paciência!!!
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Leon Danon
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1 comentários:

BLOG DO PAULO GOMES BLOG disse...

Muito bom o texto Leon. Como sempre você consegue colocar em forma de palavras aquilo que seu bom coração sente.
Parabéns. bela homenagem a Negrita, assim como já tinha feito com a Morena. Legal mesmo.

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